Planisfério para barcos de papel

               
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                               Escrevo para dar à luz. Conferi-la ao deslocamento que se produz, se faz em mim, a despeito do que "eu sou". Passo. É nela, na passagem ininterrupta, nisso o que em verdade há: o "sim", nada mais do que confiá-la, a luz a um outro. Gero dessa parcela de narrativa o traçado de um processo, mais do que procuro emitir uma opinião sobre algo dado. À exemplo disso, uma gravidez. Tal qual Macabéia, última das personagens de Lispector, estamos todos "grávidos de futuro". No entanto, mal sabemos conceber nossa própria relação com o tempo e o próprio corpo, em resumo desse nosso "despreparo", somos tal qual ela atropelados em nossa hora mais propicia, nossa hora de estrela. 

                             Gestar é a mais acolhedora potência de diferenciação. O canal de abertura extremado. Estrelas nascem e morrem. Tais quais elas o aglomerado de gestos que confabulam histórias, o vívido a pulsar,  no momento propício abrem-se ao menos dois seres para o precipício entre eles. Ou seriam duas obras inacabáveis, homem e mulher? E o que há entre estes no percurso de voltarem-se a sua corporeidade?  Eis o instante, parcela de nosso olhar a construir essa relação entre esse "mim", em cada qual deles, e o desejo.
                             Fidedignamente, ao menos dois,  tais como "Um sopro de vida" e "A hora da Estrela", não por mera casualidade escritos simultaneamente. E assim se diga por não cobiçar o estado de antagônico, menos dualidade e mais duplicações diferenciais.
                       
                            Gerar é expandir no tempo o que virá durar, é coincidir os verbos acordados com o sonhado, o fantasioso, o imaginado, denotar neles a esfera que evidencia nessa etapa seu somatório, ou seja, entre gerar e durar: uma gestação. Modificar passo a passo. Gestação a qual cabe um tempo, e menos uma barriga do que a mortalidade. Circunvizinhamos as beiras da existência, essas bordas que conformam os limites no ilimitado. Em outras palavras, o sem origem e seu absurdo. Pegunta mal colocada: de onde viemos, para onde vamos? temos apenas a radicalidade deste presente incessante. Ali estaria a essência da vida? De onde provieram as almas? São tantos num só corpo que delineamos a mais pura heteronímia. 

                           Nesse misto de tempo e de imaginação, o instante, é um insistente. Jamais começou. Por isso começo pelo meio da folha. Desafio à margem. Nosso corpo o existente. Que não se tornou à prova de nada e nem prova para coisa alguma. E o que se emite de seus entrecruzamentos, desses corpos, desse corpo e o instante na emissão fugaz da luz? o falso, a emergência do falso.


                         “Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou”.(C.L)
                            e 
                            "Do zero ao infinito vou caminhando sem parar. Mas ao mesmo tempo tudo é tão fugaz. E sempre fui e imediatamente não era mais. O dia corre lá fora à toa e há abismos de silêncio em mim. A sombra da minha alma é o corpo O corpo é a sombra da minha alma."
                            Todos os átimos me secretam.